NÃO BASTA DESTRUIR A MULHER: A CRUELDADE QUE TRANSFORMA FILHOS EM INSTRUMENTOS DE VINGANÇA
Eles descobriram onde dói mais.
Dois casos ocorridos no fim de semana do Dia dos Pais expuseram uma das faces mais cruéis da violência doméstica: filhos colocados no centro de ameaças, vingança e conflitos contra ex-companheiras.
Na Zona Sul de São Paulo, duas meninas, de apenas 3 e 5 anos, foram encontradas mortas dentro de um veículo na manhã de domingo (9). Segundo a Polícia Militar, o próprio pai, de 24 anos, acionou a corporação, confessou as mortes e relatou problemas com a ex-esposa.
Um dia antes, em Jandira, três crianças — duas gêmeas de 11 anos e um menino de 7 — foram resgatadas após o pai, segundo a polícia, fazer ameaças contra os filhos e a ex-companheira. Ele havia buscado as crianças dizendo que passaria o Dia dos Pais com elas.
Cinco crianças.
Duas mortas. Três resgatadas.
No fim de semana do Dia dos Pais.
Existe um nome para a violência em que filhos ou outras pessoas próximas são atingidos como maneira de provocar sofrimento em uma mulher: violência vicária.
É transformar aquilo que ela mais ama naquilo que pode ser usado contra ela.
É uma crueldade que ultrapassa o “se você não for minha, não será de ninguém”. É fazer a mulher sobreviver e procurar uma forma de condená-la à dor.
E aqui existe um alerta que não pode ser ignorado: ameaçar os filhos em meio à violência doméstica não pode ser tratado como uma frase qualquer dita durante uma discussão.
Quando alguém diz “vou atingir seus filhos”, é preciso ouvir.
Quando diz “você vai pagar”, é preciso perguntar como.
Nem todo crime contra uma criança cometido pelo pai tem como objetivo atingir a mãe, e cabe às investigações esclarecer a motivação de cada caso. Mas os episódios deste fim de semana obrigam a olhar para crianças que também podem estar em risco quando existe um histórico de violência, ameaça, perseguição e desejo de vingança após uma separação.
O relacionamento termina. O desejo de controle do agressor, nem sempre.
E os números mostram que essa violência já está perto demais.
Já estamos contando mulheres demais.
Não podemos começar a contar filhos…



