ANÔNIMOS DA LINHA DE FRENTE: LINDALVA, 47

ANÔNIMOS DA LINHA DE FRENTE: LINDALVA, 47

“Mas sem a gente, como é que fica o hospital? Eles nem lembram da gente, mas Deus lembra.”

Lindinalva, 47, é funcionária da limpeza do Hospital Brasil há 4 anos. Natural de Eunápolis, Bahia, veio para São Paulo buscar algo que lhe trouxesse oportunidade de ter uma vida melhor. Com três filhos e o marido, foi morar em Santo André.
No hospital, ela cuida da limpeza do centro cirúrgico e de uma das alas Covid-19 quando precisa.
“Quando eles falam ‘Lindinalva, tem que ir pro terceiro andar’, aí eu já vou toda arrumada. Uma vez eu peguei o vidro de álcool e joguei assim na minha roupa, é só não passar perto do fogo”, conta com certa leveza curiosa.
Como se manter leve em um ambiente tão denso como este?
“O povo me fala isso, mas a gente tem que trabalhar porque se fica sem trabalhar, como é que paga as contas? Tem que ter cabeça, tem que ter a mente forte, pensar que essa doença não vai me pegar. A gente tem que pensar que vai passar, é só uma fase, mas a realidade é assustadora, é muita tristeza.”
As sensações que acompanham Lindinalva se transformam a cada momento. Não é uma tarefa simples conviver com a morte, 12/36. Quantas vidas são perdidas em apenas 12 horas?
Há um ano ela trabalha sem descanso, enfrenta o vírus todos os dias e garante “ele não me pegou”. Agora vacinada, a preocupação com a própria saúde lhe dá descanso, mas Lindinalva pensa na família e tem todo cuidado possível ao chegar em casa, tirando a roupa antes de entrar.
Esse cuidado com o próximo é o que ela acredita que os outros deveriam ter também. “Eles não estão acreditando. A realidade, a gente que trabalha lá que vê, a gente que trabalha lá, a gente vê o peso que é, a gravidade das coisas. Se eles passarem um dia no hospital, eles vão ter consciência, porque eles não estão levando a sério essa doença.”
Não, eles não vêem, não vêem a realidade, não vêem Lindinalva lutando diariamente. “Na mídia, só enfermagem e médico, né? Pessoal que é da limpeza é esquecido, mas sem a gente como é que ia ficar o hospital? Tá difícil, eles nem se lembram da gente, mas Deus lembra”.

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