FRANKENSTEIN NO GRANDE ABC

Em 1818, Mary Shelley publicou Frankenstein, uma história que atravessou mais de dois séculos porque não fala apenas de um monstro, criatura que sequer tinha nome. Fala também da arrogância de quem ajuda a criar algo e depois descobre que não consegue controlá-lo.

Guardadas todas as proporções, algumas figuras poderosas do Grande ABC talvez estejam começando a entender a história.

Durante anos, ajudaram a alimentar uma criatura porque ela lhes parecia útil. Deram força, ajudaram financeiramente e assistiram ao seu crescimento acreditando que poderiam usufruir daquele poder sem jamais sofrer suas consequências.

Os sinais estavam lá. Enquanto a criatura atacava, constrangia e diminuía os pequenos ou os adversários de quem estava no poder, não parecia haver grande preocupação.

Era conveniente. Talvez até divertido.

E foi aí que cometeram o erro mais elementar: confundiram alimentar com controlar.

Acharam que poderiam escolher para sempre quem seria atingido. Acharam, sobretudo, que jamais seriam eles.

É difícil imaginar ingenuidade maior em gente tão acostumada ao poder.

Porque a criatura nunca escondeu o que era. Não houve transformação repentina. O comportamento já estava ali. A diferença é que acontecia com os outros.

Enquanto os pequenos eram diminuídos, estava tudo bem. Enquanto os adversários eram atingidos, estava tudo bem.

E, mesmo vendo tudo isso, continuaram alimentando.

Talvez acreditassem que dinheiro comprava gratidão, que proximidade comprava fidelidade e que ajudar a fortalecer uma criatura lhes daria alguma imunidade contra ela.

Mary Shelley escreveu justamente sobre esse engano.

Victor Frankenstein descobre tarde demais que criar não significa controlar.

No Grande ABC, também não faltaram avisos.

Viram a criatura crescer. Viram as motivações questionáveis e os métodos condenáveis. E mesmo assim continuaram alimentando.

Não deveria haver surpresa, é pura consequência.

No fim, Frankenstein não fala sobre a esperteza da criatura, mas sim sobre a arrogância do criador.

Mais de 200 anos depois, a lição continua simples:

quem alimenta um monstro sem consciência, não escolhe para sempre quem ele vai atacar

Artigo de opinião | Amira Laila, editora-chefe da TV São Bernardo.

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