PRIMEIRO TIME DE FUTEBOL TRANS DA REGIÃO DO ABCD É DE DIADEMA
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Equipe Spartanos fez primeiro amistoso neste domingo (28). Muito além da vitória na quadra, equipe busca visibilidade e luta por mais inclusão e respeito  

A criação de um time de futsal amador por si só não seria notícia, já que o Brasil é considerado o país do futebol. Mas a criação de um time de futsal formado integralmente por homens trans no país que mais mata pessoas trans e travestis em todo o mundo por 13 anos consecutivos, muito mais do que notícia, é um ato de resistência.  

Neste domingo (28), quando entrou na quadra da Praça Juarez Rios de Vasconcelos, no Centro de Diadema, para a disputa do primeiro amistoso oficial contra a equipe feminina Boleiras Futebol, o time Spartanos já começou a fazer história, já que é considerado o primeiro time regional de futsal do ABCD formado por pessoas trans.  

Autor do primeiro gol do jogo (o time da casa venceu as visitantes por 6×5), Junior Lima, que é Mister Trans Grande ABC 22/23 e um dos fundadores do Spartanos, falou da emoção de ver o que era um sonho se tornar realidade. “Éramos quatro meninos jogando em uma quadra sem estrutura e onde chegamos. Antes era um sonho na minha cabeça e virou realidade. É uma honra e agradeço a todos os envolvidos”.  

Além do apoio da torcida formada por parentes, amigos, simpatizantes e curiosos que passavam pelo local, o evento contou com a presença de Robson de Carvalho (Coordenador de Políticas de Cidadania e Diversidades), Tatiana Ferreira (Secretaria Municipal da Saúde), Kaah Santos (rainha trans e apresentadora), Wandy Uchôa (DJ e digital influencer), Rafael Campos (ONG Viva a Diversidade), entre outros.    

Representatividade e conquistas 

“Mais uma vez a cidade de Diadema faz história ao incentivar a população trans a ampliar seus horizontes. Hoje aconteceu a participação do Spartanos em seu primeiro amistoso em conjunto com as Boleiras, foi uma grande oportunidade de dialogar a importância de incentivar o esporte para essa população. O esporte é uma ótima ferramenta para entendermos as diferentes manifestações corporais e que nem tudo se restringe ao binarismo de gênero, estamos em uma nova era e o esporte e demais movimentos precisam encarar esse desafio sem preconceito, com ética e relevância. Destaco que esse grupo de jovens são assistidos pelo nosso Ambulatório DiaTrans e pela Coordenadoria de Políticas de Cidadania e Diversidade, na qual lutamos em conjunto com nosso prefeito pela inclusão e legitimidade da comunidade, que possamos realizar sempre ações como essa que inclui e não exclui, abrindo portas para outros desafios como educação, trabalho e uma dignidade para todes”, disse Robson.  

Robson lembrou ainda que a prática desportiva é um dos diretos humanos previstos na Constituição Federal no seu artigo 217. “É necessário, portanto, termos um ambiente o máximo possível acolhedor para que essa inclusão se torne efetiva e ocorra de maneira eficiente e sem preconceitos. Agradecemos a todos que compareceram nesse domingo e fazemos votos de muita conquista e oportunidades não só para o grupo Spartanos e sim para todos os LGBTQIA+ de nossa cidade. Então compartilhe essa ideia e venha apoiar nossa luta”, convidou.  

Após o jogo, Ana Guimarães, responsável pelo clube Boleiras Futebol Feminino (que existe há sete anos e treina em São Paulo), lembrou que as mulheres sabem bem como é lutar para conquistar espaço e respeito na sociedade. “Estou emocionada e só queria agradecer. Para vir aqui, a gente juntou as meninas, veio prestigiar os meninos e essa luta também é nossa. Tem muito futebol por aí, mas o futebol feminino ainda é muito de luta. É importante a genteocupar os espaços, que sempre foram nossos e sempre foram negados. Essa é a nossa luta e estamos juntosna busca por respeito e representatividade”.  

Apoio da família 

Ilmara Maurício Quintella é mãe do jogador Phillip (carinhosamente chamado de Phill) e trouxe a família toda para acompanhar a estreia do time. Animada, fazia de questão de gritar o tempo todo palavras de incentivo e carinho para o filho.  

“O Phill se assumiu trans muito cedo, aos 18 anos. Ele foi muito forte e nasceu para me libertar. Hoje vivo um relacionamento com outra mulher e nossa família inteira está aqui hoje para torcer junto pelo Phill. É importante que as pessoas busquem conhecimento. A Prefeitura de Diadema tem ajudado, criou o Ambulatório DiaTrans, se não fosse isso, o que seria do meu filho?”.  

Se pudesse deixar um conselho aos pais de pessoas trans seria: “O amor vence qualquer barreira. Vamos abraçar e amar nossos filhos como eles são”.  

Phillip sabe que, infelizmente, ter o apoio da família não é a realidade de todas as pessoas trans, por isso, valoriza o acolhimento que tem em casa. “É importante esse apoio e é motivo de felicidade ter a família toda me apoiando e torcendo. Estou muito feliz. O começo do time foi difícil, éramos em quatro, hoje já somos 25 pessoas. Estamos mostrando que nosso objetivo pode se tornar realidade e que é possível sim”. 

O jovem conta que o apoio do Ambulatório DiaTrans foi fundamental para que o grupo se conhecesse. “Morava perto de vários meninos trans e não nos conhecíamos. A partir do acompanhamento no DiaTrans, fizemos novas amizades, vi que existia muitos meninos como eu aqui na cidade e hoje digo que somos todos irmãos, só que de mães diferentes”.  

Spartanos 

Formados por homens trans atendidos pelo Ambulatório DiaTrans, o time tem crescido em participação e sonha alcançar mais visibilidade.  

Anthony Hully Pereira Dias é um dos jogadores e responsável pela diretoria e marketing do time. Ele explica os objetivos do grupo. “A gente busca em Diadema ocupar espaços. Tem muitos meninos trans que sofrem porque não tem oportunidade de emprego. A ideia do Spartanos não é só jogar futebol, é trazer oportunidade e visibilidade para que assim a gente consiga conquistar grandes coisas, como a população cis normativa conseguiu. Contamos com vocês”.  

Atualmente o Spartanos já conta com 25 jogadores, sendo que 18 deles frequentam os treinamentos assiduamente. A equipe vem revezando os treinamentos em duas praças da cidade, sempre aos domingos pela manhã. “A equipe está em busca de patrocínios e parcerias para aquisição de uniformes e equipamentos”, explica Junior Lima. 

Quem quiser patrocinar o time ou ajudar com doações de materiais esportivos, pode entrar em contato com o grupo pelo instagram @spartanos_jr.   

O próximo desafio oficial do time será um amistoso contra a equipe de Sorocaba. O jogo acontecerá no dia 25 de setembro, das 8h às 12h, no Ginásio Municipal de Esportes Claudio Kano (Promissão), como parte da comemoração pelo primeiro aniversário do Ambulatório DiaTrans.  

Ambulatório de Saúde integral a população Trans e Travestis 

O primeiro Ambulatório de Saúde Integral da População de Travestis e Transexuais de Diadema e do Grande ABCD fica localizado no segundo andar do Quarteirão da Saúde (QS) e foi inaugurado oficialmente no dia 15 de setembro de 2021.  

O Dia Trans disponibiliza processo transexualizador, com hormonioterapia e abre espaço para fala, escuta e acolhimento das demandas das travestis e de transexuais que moram na cidade. 

O usuário que procura espontaneamente o serviço passa em acolhimento com a vinculadora e depois por uma consulta admissional. O Grupo de Entrada funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h. Após ser cadastrado tem acesso a consultas médicas e acompanhamento de outras categoriais profissionais, respeitando as necessidades e especificidades de cada indivíduo. 

O apoio à criação do time Spartanos e a prática de uma atividade física veio da necessidade que os usuários em tratamento precisam manter o peso ou emagrecer para tomar os hormônios previstos no tratamento e também pela questão da inclusão e da manutenção do estar-estar físico e mental dos usuários.   

“Saber que o Ambulatório DiaTrans em quase um ano já está proporcionando atendimento humanizado e acolhedor para essa população e trazendo resultados como esse só reforça em nossa equipe o sentimento que estamos no caminho certo para reduzir o preconceito e incentivar ações de inclusão na nossa cidade”, afirmou a secretária municipal da saúde, Dra Rejane Calixto.  

O serviço é uma realização da Secretaria Municipal da Saúde por meio de uma parceria com a Coordenadoria de Políticas de Cidadania e Diversidades LGBTI+ e conta com apoio do Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS-SP que será a referência para as cirurgias e para a educação continuada permanente. 

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